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16/04/2018
Oncas e outros gatos sao ameacados pela caca na Caatinga

Onças e outros gatos são ameaçados pela caça na Caatinga

Por Vandré Fonseca
segunda-feira, 16 Abril 2018 23:55

Se o sertanejo é, antes de tudo, um forte, como escreveu Euclides da Cunha, o que dizer de onças-pintadas, suçuaranas, jaguatiricas e outros felinos que resistem na Caatinga? Cercados, sujeitos à caça e, principalmente, a concorrência do homem por suas presas, felinos vivem sob ameaça nesse ambiente, associado ao clima semiárido do nordeste brasileiro.

A Caatinga é formada por uma grande variedade de paisagem, que inclui sim os cactos e arbustos de galhos retorcidos normalmente relacionados à ela. Mas há outras Caatingas. Nas chapadas ou mesmo em boqueirões espremidos entre serras ou escavados por rios, surgem matas, com árvores de 20 metros de altura.

É assim na Serra da Capivara, um Parque Nacional com quase 130 mil hectares no Sudeste do Piauí, uma região onde ainda são encontradas onças-pintadas, o maior felino das Américas. São poucas, não chegam a 20 animais. Para comparar, enquanto na Caatinga a densidade de onças varia de 1,57 a 2.67 indivíduos a cada 100 quilômetro quadrado, no Pantanal por exemplo chega a 11,7 indivíduos por quilômetro quadrado. Além de poucos, ainda sofrem com a concorrência desleal dos caçadores, que por diversão apontam suas espingardas para animais que serviriam de alimento às onças.

O resultado da caça praticada no entorno e mesmo no parque é o desaparecimento das presas maiores. Emas e tamanduás-bandeira já foram extintos no parque. Sobraram talvez apenas dois grupos de queixada, segundo conta o biólogo Everton Miranda, autor principal de um estudo sobre a dieta das onças pintadas na Serra da Capivara.

Everton coletou e analisou fezes de onças-pintadas no parque. Os resultados demonstraram que a principal presa desses grandes felinos por ali é o tatu-peba (Euphractus sexcinctus), um animal que em média possui 5 quilos quando adulto. Comida, segundo o estudo, suficiente para satisfazer uma fêmea por apenas dois dias. Em outras regiões, onças comem bichos pequenos mas também tem a disposição animais bem maiores, como caititus, que chegam a 30 quilos.

"Com alimentação exclusivamente de presas de pequeno porte, uma fêmea tem dificuldades para criar os filhotes até eles crescerem e se tornarem independentes", afirma Miranda, que atualmente é professor na Universidade do Estado do Mato Grosso (Unemat) e estuda harpias. "Para alimentar os filhotes, esses bichos precisam abater presas maiores, como o caititu, tamanduá-bandeira, queixada", completa.

Mas antes que esses animais grandes sejam levados de volta à Caatinga, é preciso resolver um problema de vizinhança, onde estão populações humanas. Repovoar a Serra da Capivara com emas, tamanduás-bandeira, queixadas de nada adiantaria para as onças, se suas presas continuarem a ser derrubadas pela espingarda.

"Se você pensar na importância que essas onças têm para o resto da Caatinga", destaca o biólogo. "Essa população está emitindo indivíduos que vão migrar e colonizar outras áreas e vai trocar indivíduos com outras populações", completa.

Primos menores
A algumas centenas de quilômetros dali, com quase a totalidade da área já no estado vizinho do Ceará, a Reserva Particular do Patrimônio Natural Serra das Almas,é abrigo para outras quatro espécies de felinos. Há muito tempo não existe registro de onças-pintadas por ali. Mas, assim como lá na Serra da Capivara, caçadores são a grande ameaça.

Por lá, pesquisadores brasileiros e europeus monitoram, com ajuda de armadilhas fotográficas, suçuaranas (Puma concolor), jaguatiricas (Leopardus pardalis), gatos-mouriscos (Puma yagouaroundi) e gatos-do-mato-pequeno (Leopardus tigrinus) e o gato-maracajá (Leopardus wiedii).

"A gente está na terceira fase do projeto No Clima da Caatinga, querendo estudar melhor a rota desses animais dentro da reserva e áreas adjacentes para, no final, propor medidas de conservação para esses ambientes", conta o coordenador técnico do projeto, Samuel Portela.

Nos 6 mil hectares da Serra das Almas, a vegetação varia de arbustiva densa a uma Caatinga arbórea nas áreas mais altas. A região é bem preservada, mas isolada. Em seu entorno, sofre pressão de caçadores, de queimadas que frequentemente saem do controle e se transformam em incêndios florestais e desmatamento, para madeira ou lenha.

"Somos uma ilha preservada em um mar de degradação", afirma Portela. "É uma luta constante, a gente faz vários trabalhos dentro do projeto existem várias campanhas de combate à caça, de conscientização e uso de tecnologias que não agridam o Meio Ambiente", conta o biólogo.

Mesmo assim, ainda são encontrados veados, pacas, cotias...

Infelizmente, nenhuma espécie, nem os preás, escapam de caçadores. E quanto maior o animal abatido, maior a satisfação dos caçadores. A consequência: redução de presas para os felinos, especialmente para as suçuaranas, os maiores dentro da RPPN.

"A reserva se tornou um refúgio para os animais", diz Samuel Portela, explicando que a RPPN conta com guardas-parques para fazer a segurança. "Mas como os felinos precisam de áreas grandes para sobreviver, não ficam só dentro da RPPN e fora da reserva estão mais suscetíveis a serem abatidos e suas presas também. Sem presas, atacam animais de criações causando a revolta dos produtores rurais, que acabam abatendo os felinos".

De acordo com o projeto No Clima da Caatinga, estima-se que existam menos de 2.500 onças-pardas na Caatinga. Mas essa população pode ser reduzida em pelo menos 10% nos próximos 21 anos, devido principalmente a fragmentação do habitat, provocada pela expansão da energia eólica, agropecuária, mineração e corte de madeira.

O projeto, financiado pela Petrobrás, repõem florestas, faz ações de educação ambiental e implanta tecnologias sustentáveis em 39 comunidades de Crateús (CE) e Buriti dos Montes (PI), no entorno da RPPN.

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